sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cadeias no Brasil: o inferno continua

Da cadeia de Flórida Paulista, interior de São Paulo, chegam pedidos de socorro dos presos que lá estão. Seus parentes também me procuram e narram que lá a situação está absurda neste presídio. ContamFatima Souza - Repórter PolicialFatima Souza - Repórter Policial que há muitos casos de tuberculose e que presos doentes não são separados dos sadios, de forma que a doença está se alastrando. Reclamam que não há advogados no presídio para atender aos detentos (o que é obrigatório por lei) e que por isso, quem não tem dinheiro para pagar o próprio defensor fica dependendo do Estado e como não há advogados, presos que já tem direito ao regime semi-aberto continuam no regime fechado, sem o direito de trabalhar e tentar voltar a sociedade. Para fazer um exame criminológico, denunciam presos e seus familiares, o detento tem que esperar de 120 a 160 dias. Narram ainda que as visitas são extremamente mal tratadas no presídio. E não adianta reclamar. A ordem do dia é calar.

Sei que este não é um assunto fácil de tratar, porque sei que a maioria das pessoas torce o nariz quando o assunto é presos e seus direitos desrespeitados. Para muitos eles devem apodrecer lá sem direito nenhum, apanhando e sendo usados por aqueles que embolsam dinheiro nesta indústria chamada presídio... Mas eu sou uma pessoa que já me acostumei a remar contra a maré e não consigo ver injustiças sem denunciá-las. O que o pessoal de Flórida Paulista reclama é um coro em todas as cadeias de São Paulo e do Brasil. Em 2009 acompanhei o Deputado Domingos Dutra na CPI do Sistema Carcerário e fomos a mais de 60 presídios nos Estados do Brasil. Pudemos ver a trágica realidade que se esconde atrás das grades e como a LEP – Lei de Execuções Penais existe apenas no papel porque na realidade não é cumprida em nenhum ponto. Vimos homens tratados como animais, convivendo com porcos, confinados em salas minúsculas planejada para quatro pessoas mas que tinha até vinte! Fizemos um vídeo durante estas visitas (que você pode assistir aqui no SP AGORA). Me lembro que o Deputado Domingos Dutra disse uma frase chocante: “Se você quer conhecer o inferno, visite as cadeias do Brasil”. E o inferno continua. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados planeja fazer novas visitas, voltando as cadeias onde foram durante a CPI, dado o número imenso de reclamações e denúncias de maus tratos, desrespeito e agressões.

É preciso que a sociedade passe a cobrar os governos. As cadeias tem que ser um local onde o preso é recuperado e não onde seja tratado como animal. Canso de dizer que as pessoas esquecem que este preso tratado ali como bicho, voltará a sociedade como bicho e as consequências serão o aumento da violência e, novamente, a gente se transformando em vítimas. É preciso que a sociedade entenda que se o preso sair da cadeia recuperado quem ganha somos nós, a sociedade. São gastos milhões de reais por mês em nome dos detentos e para eles nada sobra além de porradas. Não tem advogados, comem comida que é um lixo (e que, segundo os diretores das cadeias custa um absurdo!), não tem colchão nem cobertores para dormir, não recebem uniformes dos governos estaduais... Não recebem nada. Não recebem atendimento médico, são obrigados a tomar banho frio para não gastar com energia e não recebem a visita, obrigatória, de juízes e promotores. Então se eles nada levam para onde vai o dinheiro que todos os governos estaduais dizem gastar com cadeias e detentos? Cadeias no Brasil é um problema desde que fomos descobertos pelos portugueses. Já passamos dos 500 anos e não há solução. Só posso pensar que manter cadeia no Brasil é um bom negócio para muitos, menos para os detentos. E para nós que estamos aqui, esperando que homens que viraram bichos voltem a nos atacar. Quando é que a sociedade e Governos vão levar este assunto a sério?

Fatima de Sousa do site: www.spagora.com.br/

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